Publicado em 20/01/2026 - 09:56 / Clipado em 21/01/2026 - 09:56
Câncer de pâncreas: mais comum que antes, entenda por que ele é desafiador
Lúcia Helena Colunista de VivaBem
Já reparou que estamos ouvindo falar cada vez mais de câncer de pâncreas? Olha só o último final de semana. Na sexta, dia 16, a doença levou o jornalista André Miceli, apresentador da Jovem Pan. No sábado, o ator Leandro Lima, no ar em "Três Graças", da Globo, contou no seu perfil do Instagram que andou afastado das redes sociais porque o pai está com esse tumor. Ele ainda deu o ótimo recado sobre a importância de não ignorar a perda de peso sem motivo, que é um dos sintomas. E, no domingo, um câncer de pâncreas foi a causa da morte do ex-ministro Raul Jungmann.
No ano passado, soubemos que o guitarrista dos Titãs e escritor Tony Bellotto e o chef de cozinha Edu Guedes receberam o mesmo diagnóstico — ambos tratados e aparentemente passando bem agora.
Mas o que será que está acontecendo para um câncer de que a gente mal ouvia falar no passado, de repente, virar figurinha comum no noticiário?
O oncologista Paulo Hoff, que é professor titular da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e presidente da Oncologia D'Or, consegue apontar duas explicações. "Uma delas é que há, sim, um crescimento na incidência de câncer de pâncreas nos últimos tempos. Mas note que não é um aumento explosivo", pondera. Ou seja, tanta notícia de gente conhecida com essa doença concentrada só nos últimos dias não deixa de ser uma terrível coincidência.
O país espera, de acordo com dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer), 11 mil novos casos neste ano. E isso significa um aumento de 15% em relação ao que acontecia há 20 anos. Essa diferença, segundo o professor Hoff, é porque o diagnóstico da doença também aumentou. "É difícil mensurar, mas antes existiam mais pessoas com esse câncer que, sem exames, definhavam e morriam de uma causa não muito estabelecida", conta. Em outras palavras, morriam devido ao pâncreas doente, sem saber.
A segunda explicação do médico é que os tratamentos andam mais eficientes. "Com isso, embora a letalidade continue alta, você encontra indivíduos vivendo mais tempo com a doença e eles se somam a quem acaba de descobrir o tumor, dando essa impressão nas pessoas de um salto muito grande na prevalência", pensa. Mas reconhece a razão de a gente ter arrepios ao ouvir sobre o assunto: "Essa é uma das doenças mais difíceis de tratar na oncologia."
Crescimento silencioso
Você está vendo a imagem desta coluna? As "bolotas" que aparecem em roxo são células malignas do pâncreas, com superfície irregular — ora, não dá para esperar perfeição se, como todo câncer, elas se multiplicam depressa e de qualquer jeito — e formando grupos desorganizados, uma aqui, três ali...Um dos problemas é que elas surgem na surdina.
"Quando o câncer de pâncreas dá sintoma, ele já está bem avançado", afirma o professor Paulo Hoff. Uma das pistas mais comuns é a icterícia, isto é, a pessoa vai ficando com a pele e os olhos amarelados. Isso porque eles ficam entupidos de bilirrubina, o pigmento amarelo que sobra quando o fígado quebra e tira da circulação os glóbulos sanguíneos vermelhos envelhecidos. A molécula amarela seria jogada fora com a bile, mas às vezes um tumor de pâncreas já graúdo comprime o canal que despejaria esse suco digestivo da vesícula para o intestino.
Outro sintoma é uma dor funda. Ela não vai e volta. Fica, causando uma sensação de aperto ou queimação na parte superior do abdômen que só piora, irradiando pelas costas e, às vezes, até incomodando a região lombar, lá embaixo.
A perda de peso que acontece do nada é outro sintoma. O professor Hoff explica: "O pâncreas é um órgão ligado à digestão e, quando tem um câncer, altera a produção de enzimas que afetam o aproveitamento dos alimentos em uma tentativa, não muito racional, de eliminar a fonte de energia e segurar o crescimento do tumor."
A digestão das gorduras, por exemplo, fica prejudicada. Com isso, o próprio estômago demora mais para esvaziar-se e a fome some com a sensação de barriga cheia. "Além disso, pode acontecer a caquexia, uma condição que vemos em vários tipos de câncer e que, especificamente no de pâncreas, é frequente."
Na caquexia, o câncer libera substâncias que mexem com o metabolismo e fazem o organismo consumir músculos e gordura para obter energia, mesmo que a pessoa esteja se alimentando. Resultado: o corpo definha.
"Por fim, um sintoma mais raro de câncer de pâncreas são tromboses inexplicadas", conclui o oncologista. É como se o tumor fizesse o sangue formar coágulos por qualquer bobagem ou até mesmo sem motivo.
Não tem como rastrear
A localização do pâncreas não ajuda em nada. Exames de imagem feitos de rotina, como o ultrassom, mal visualizam o pâncreas, que fica escondido atrás do estômago e, parte dele, atrás do intestino. Mais esta: o tumor não deforma o órgão, por assim dizer. Nem mesmo a tomografia acusa algo de estranho se o câncer é pequeno. "Os marcadores para essa doença tampouco são muito bons", lamenta o professor Paulo Hoff. Tudo empurra para o diagnóstico tardio.
Pergunto, então, quem deveria ficar mais esperto ainda diante dos sinais de um possível câncer de pâncreas. O oncologia lista: "Quem tem obesidade ou é sedentário", começa. Entre outras coisas, a obesidade aumenta a resistência à insulina e, digamos, força a barra do pâncreas, obrigando-o a trabalhar além da conta. Existe, inclusive, uma associação entre diabetes tipo 2 e risco aumentado dessa doença maligna.
Além disso, segundo o professor Paulo Hoff, o tabagismo é um dos principais fatores de risco. Quando a gente pensa em cigarro, logo se lembra dos pulmões. Mas eles estão longe de ser vítimas isoladas. O pâncreas sofre — e muito! — com as substâncias maléficas do tabaco.
Existem fatores genéticos específicos que podem estar por trás do surgimento de um tumor desses e pessoas com histórico de câncer em família, como mutações nos genes BRCA — aqueles de que a gente sempre escuta falar quando o assunto é câncer de mama — poderiam ficar mais ligadas. "Porém, apenas a minoria dos casos tem a ver com a genética", informa o professor.
Por que é um enorme desafio
Não bastasse o diagnóstico tardio, que dificulta o tratamento de qualquer câncer, as células malignas do pâncreas são particularmente tinhosas: "Elas são resistentes à quimioterapia. E, infelizmente, ainda só contamos com esse tratamento convencional quando o tumor já não está mais localizado", conta o professor Hoff. "Ainda não há terapia-alvo, nem imunoterapia para o câncer de pâncreas."
Muitas vezes, quando um caso é flagrado, o tumor de fato ainda não se espalhou pelo organismo, no fenômeno da metástase, mas é o que os médicos rotulam de "localmente avançado". Em outras palavras, embora ainda não tenha saído do território de origem, ele é um bocado grande, esbarrando em vasos importantes que passam por ali, como a artéria esplênica, que irriga o baço, o estômago e o próprio pâncreas. A ameaça de encrenca é grande e a cirurgia, não raro, torna-se inviável.
Sem contar uma triste ironia: "Os tumores na cabeça do pâncreas tendem a apresentar sintomas mais cedo, quando ainda são menores, só que essa região é difícil de operar", conta o oncologista. Ora, essa parte mais larga e à direita do órgão, bem atrás do estômago, praticamente se encaixa no duodeno. "Já os tumores de corpo, que é a parte central do pâncreas, e de cauda, seriam mais fáceis de operar para tirar o tumor. Só que, nessa localização, a doença apresenta sintomas tardiamente, quando já avançou bastante."
Mudanças de cenário
Apesar da resistência das células doentes aos quimioterápicos, hoje existem drogas um pouco mais eficientes e os resultados são ainda melhores quando elas são combinadas à cirurgia.
Também surgiram novas técnicas. "Na Oncologia D'Or, temos a eletroporação, também conhecida como Nanoknife", exemplifica o professor Hoff. "Nela, passamos uma corrente elétrica que atinge regiões do pâncreas que, antes, eram impossíveis de serem alcançadas pelo bisturi com segurança. Essa corrente cria poros nas membranas celulares. As sadias conseguem fechá-los. Mas as células doentes, não. E, então, morrem." Esta é uma opção de tratamento quando o câncer de pâncreas está localizado. Outra é a radiocirurgia, em que feixes de radiação extremamente precisos destroem o tumor.
De todo modo, o paciente ainda faz seis meses de quimioterapia para caçar alguma célula maligna que, por azar, tenha escapado dessas tecnologias ou da cirurgia convencional.
Avanços assim permitem maior sobrevida e, sim, pode acontecer a cura. O professor Paulo Hoff já viu pacientes se livrarem do tumor de pâncreas. "Difícil nunca quis dizer impossível", ele faz questão de lembrar.
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