Publicado em 19/01/2026 - 09:56 / Clipado em 20/01/2026 - 09:56
Câncer de cólon: vacina experimental tem resultados promissores para prevenir doença; entenda
Ensaio clínico focou em 45 pacientes diagnosticados com síndrome de Lynch, doença hereditária rara que aumenta a probabilidade de desenvolver o tumor
Por Maria Camila Salas Valencia, Em El Tiempo
Uma investigação internacional liderada pelo médico e pesquisador espanhol Eduardo Vilar-Sánchez divulgou resultados preliminares e encorajadores de uma vacina experimental desenvolvida para prevenir o câncer de cólon em pacientes com alto risco genético. O anúncio marca um marco após mais de uma década de trabalho focado na prevenção do câncer.
O estudo avaliou a eficácia inicial da vacina Nous-209 em um pequeno grupo de pessoas com síndrome de Lynch, uma doença hereditária rara que aumenta significativamente a probabilidade de desenvolver câncer de cólon mais tarde na vida. De acordo com os dados apresentados, um ano após a imunização, as lesões pré-cancerosas existentes não apresentaram crescimento e nenhuma nova lesão foi detectada.
O MD Anderson Cancer Center em Houston, onde Vilar-Sánchez trabalha, relatou que essas descobertas representam um indício inicial de que a estratégia poderia “prevenir o câncer antes que ele apareça”. Em entrevista ao EL PAÍS, o pesquisador de 46 anos afirmou: “É um primeiro passo para a área, mas demonstramos que o desenvolvimento de vacinas preventivas contra o câncer é viável”.
Uma população específica e uma abordagem inovadora
O ensaio clínico focou em 45 pacientes diagnosticados com síndrome de Lynch que ainda não haviam desenvolvido câncer de cólon, embora apresentassem pólipos, considerados lesões potencialmente pré-cancerígenas. Essa condição genética afeta aproximadamente uma em cada 270 pessoas e aumenta significativamente o risco de recorrência do câncer de cólon.
Como funciona a vacina Nous-209
A vacina Nous-209 utiliza um adenovírus de macaco inativado como veículo para transportar 209 antígenos, proteínas que aparecem repetidamente em tumores do cólon, estômago e endométrio. O objetivo é treinar o sistema imunológico para identificar e atacar células com características cancerígenas antes que a doença se desenvolva.
Durante o acompanhamento, a imunização demonstrou um perfil de segurança favorável, sem efeitos adversos graves associados ao tratamento. Todos os participantes desenvolveram fortes respostas de células T, que aumentaram após a readministração anual. Em laboratório, essas células demonstraram a capacidade de eliminar células tumorais e manter a memória imunológica.
Após um ano, 85% dos pacientes não apresentaram novos pólipos avançados, fornecendo "evidências iniciais de que o NOUS-209 pode ajudar a impedir o câncer antes que ele se desenvolva". Os resultados foram publicados na revista Nature Medicine.
Âmbito potencial e próximos passos
Os pesquisadores acreditam que essa abordagem pode ter aplicações mais amplas. Os tumores associados à síndrome de Lynch exibem alterações genéticas específicas, como deficiência no reparo de erros de pareamento e instabilidade de microssatélites — características também encontradas em 15% dos tumores de cólon, 20% dos tumores de endométrio e 5% dos tumores de bexiga e estômago na população em geral.
Vilar-Sánchez enfatizou que o impacto imediato se concentra em pacientes com síndrome de Lynch, que representam aproximadamente 3% de todos os casos de câncer de cólon.
“Claramente, a aplicabilidade direta é para a população com síndrome de Lynch, que é relativamente grande, representando 3% de todos os tumores de cólon [há um milhão de pacientes com a síndrome somente nos Estados Unidos]. No futuro, também seria aplicável à prevenção desses cânceres na população em geral”, explicou, ressaltando a necessidade de desenvolver estratégias eficazes para identificar grupos de risco.
A vacina foi desenvolvida pela empresa farmacêutica suíça Nouscom. Tanto a empresa quanto a equipe médica nos Estados Unidos estão trabalhando no planejamento de ensaios clínicos em larga escala, que incluirão grupos de controle randomizados para avaliar com mais precisão a verdadeira eficácia da imunização.
De uma perspectiva externa, Rosario Vidal, membro da Sociedade Espanhola de Oncologia Médica e não envolvida no estudo, avaliou os resultados com cautela.
“Os resultados de eficácia são exploratórios, visto que o estudo não é suficientemente amplo e carece de acompanhamento adequado para que se possam tirar conclusões a este respeito. No entanto, trata-se de uma estratégia inovadora e promissora para a prevenção do câncer em uma população selecionada, que poderia ser extrapolada para a prevenção de outros tumores com as características moleculares identificadas. É um primeiro passo muito interessante na utilização de vacinas para a prevenção do câncer, que precisará ser confirmado por estudos randomizados e um acompanhamento mais longo”, observou.
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