Publicado em 17/01/2026 - 10:30 / Clipado em 19/01/2026 - 10:30
Interoperabilidade de dados: passo essencial para o cuidado integrado e centrado no paciente
Trata-se de uma mudança de paradigma: o dado deixa de ser apenas um ativo técnico e passa a ser um instrumento de empoderamento
Por Giovanni Cerri , Marco Bego e Érico Theodorovitz
A fragmentação das informações clínicas é um dos principais entraves para a qualidade, a segurança e a eficiência do cuidado em saúde no Brasil. Dados de um mesmo paciente costumam ficar dispersos entre hospitais, laboratórios, clínicas, operadoras e diferentes sistemas, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na saúde suplementar. Nesse cenário, a interoperabilidade de dados emerge como um pilar fundamental para transformar o cuidado, fortalecer a governança e colocar o paciente no centro do sistema.
Interoperabilidade significa permitir que diferentes sistemas de informação em saúde “conversem” entre si de forma segura, padronizada e em tempo real. Na prática, isso possibilita que informações clínicas relevantes — como exames, diagnósticos, históricos e prescrições — possam ser acessadas por profissionais de saúde no momento do cuidado, sempre mediante o consentimento do paciente.
Esse modelo tem impacto direto na qualidade assistencial. O acesso a dados completos e atualizados reduz erros, evita exames duplicados, melhora a coordenação do cuidado e contribui para decisões clínicas mais assertivas. Para o paciente, significa uma jornada mais fluida, segura e humanizada, independentemente de estar sendo atendido no SUS ou na rede privada.
Outro ponto central desse debate é a governança dos dados de saúde. No Brasil, os dados pertencem ao paciente e são considerados dados pessoais sensíveis, protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Isso significa que seu uso deve obedecer a princípios rigorosos de finalidade, necessidade, transparência e segurança. A interoperabilidade não implica abertura irrestrita de informações, mas sim o compartilhamento responsável, ético e regulado, com controle granular de consentimento, rastreabilidade e auditoria.
Quando bem estruturada, a interoperabilidade fortalece a cidadania digital em saúde. O paciente passa a ter maior autonomia e protagonismo sobre seu próprio histórico clínico, com acesso, visibilidade e poder de decisão sobre quem pode utilizar seus dados e para qual finalidade. Trata-se de uma mudança de paradigma: o dado deixa de ser apenas um ativo técnico e passa a ser um instrumento de empoderamento do cidadão.
Do ponto de vista sistêmico, os ganhos também são relevantes. A redução de redundâncias e retrabalhos contribui para a sustentabilidade financeira do sistema de saúde, liberando recursos para ações de maior valor assistencial. Além disso, a integração de dados favorece políticas públicas mais eficazes, planejamento em saúde e avanços em pesquisa e inovação, sempre com respeito à privacidade.
Iniciativas recentes de interoperabilidade no País mostram que é possível avançar com segurança, governança e colaboração entre diferentes atores — hospitais públicos e privados, laboratórios, operadoras, setor tecnológico e poder público. Alinhadas a padrões internacionais, como o HL7 FHIR, e integradas a estratégias nacionais como a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), essas iniciativas apontam para um futuro em que tecnologia e cuidado caminham juntos.
Mais do que um desafio tecnológico, a interoperabilidade é uma agenda de transformação cultural e institucional. Ela exige cooperação, confiança e uma visão comum: a de que os dados de saúde devem servir, acima de tudo, ao cuidado do paciente e ao interesse público. Avançar nessa direção é essencial para construir um sistema de saúde mais integrado, eficiente, seguro e humano — dentro e fora do SUS.
Opinião por Giovanni Cerri
Presidente do InovaHC
Marco Bego
Chief Innovation Officer InovaHC
Érico Theodorovitz
CEO da Moso VDB
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