Publicado em 08/01/2026 - 09:54 / Clipado em 09/01/2026 - 09:54
DNA de tumores dos anos 50 pode explicar aumento do câncer colorretal em jovens de hoje
Estilo de vida atual é citado como causa da explosão do câncer de intestino entre jovens. Pesquisa quer entender exatamente qual fator de risco pesa mais
Por Maurício Brum
Uma antiga amostra de biópsia de câncer de intestino: ela pode guardar uma resposta capaz de melhorar a prevenção e o tratamento para o câncer que mais cresce entre jovens (The Institute of Cancer Research/Divulgação)
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Nos porões de um hospital dedicado às doenças intestinais na região metropolitana de Londres, pesquisadores britânicos acreditam estar diante de uma possível chave para responder de forma definitiva uma das grandes questões da medicina atual: por que a prevalência do câncer colorretal vem crescendo tanto entre jovens nas últimas décadas?
Que os tumores de intestino têm aumentado radicalmente é um consenso, mas a explicação precisa para o fenômeno ainda é discutida. Várias hipóteses relacionadas ao estilo de vida têm sido aventadas, mas ninguém ainda consegue cravar se alguma (ou uma combinação delas) é “mais culpada” pelo problema.
Agora, os pesquisadores querem comparar amostras de cânceres de décadas atrás com aquelas obtidas em tempos atuais, tentando entender as diferenças — e, talvez, desvendar o que vem sendo determinante para a explosão de casos em adultos jovens dos dias de hoje.
Arquivo de amostras é o mais completo do mundo
A chave do mistério está no arquivo de amostras biológicas do St Mark’s Hospital, instituição de referência para doenças intestinais no Reino Unido, considerado o acervo mais completo do gênero no mundo.
Pesquisadores do Institute of Cancer Research (ICR) de Londres e do próprio hospital querem utilizar materiais coletados de cânceres nos anos 1950 e 1960 e submetê-los a técnicas avançadas de sequenciamento do genoma. Eles afirmam que estudos já realizados demonstram que o material genético continua suficientemente conservado para uma análise detida, inclusive em amostras até mais antigas, do começo do século 20.
Se tudo der certo, a ideia é observar de que maneira o DNA de pacientes de seis e sete décadas atrás foi alterado para levar ao câncer, e fazer o mesmo com amostras atuais.
Em tese, nosso código genético seria capaz de guardar informações valiosas sobre quais exposições ambientais foram mais determinantes para o câncer aparecer, tanto no passado quanto hoje. Ao comparar os resultados, a ciência poderia descobrir com mais clareza o que está levando ao aumento dos diagnósticos desse tipo de tumor.
Os pesquisadores são ambiciosos: se o projeto for realmente bem-sucedido, a ideia é determinar “exatamente” a causa da explosão de cânceres intestinais, afirma Trevor Graham, um dos líderes do trabalho, ao site do ICR.
Câncer colorretal cresce no mundo
Diferentes análises comparativas têm demonstrado uma tendência de aumento de câncer colorretal no mundo todo, com um crescimento proporcionalmente maior em adultos jovens (abaixo dos 50 anos). No Brasil, onde houve 45 mil novos diagnósticos desse câncer em todas as faixas etárias nos últimos dois anos, a desproporção de casos entre os 20 e 49 anos também é registrada.
Até aqui, a ciência trabalha com hipóteses que passam pelas mudanças de hábitos nas últimas décadas. Obesidade, sedentarismo e uma dieta mais pobre em fibras e rica em ultraprocessados são algumas das explicações possíveis para uma vida mais hostil à saúde do intestino, que poderia aumentar os casos de câncer.
No entanto, ainda não há uma resposta definitiva. No ano passado, um estudo publicado pela revista Nature, por exemplo, sugeriu que a toxina colibactina, produzida por determinadas cepas da bactéria Escherichia coli, poderia contribuir para o câncer precoce – mas só ela não explicaria o começo da doença, que também precisaria de outros fatores de risco para ser desencadeada.
A nova pesquisa britânica quer ajudar médicos e pacientes a entender quais desses fatores demandam mais atenção para se proteger da doença. Caso seja possível mapear com precisão os culpados pelo aumento dos casos, “isso poderia levar a novas estratégias para prevenção e tratamento do câncer de intestino“, afirma Trevor Graham.
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