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Portal Folha de S. Paulo

Publicado em 23/12/2025 - 09:54 / Clipado em 23/12/2025 - 09:54

Radiação focada na medula traz menos riscos e maior sobrevida para idosos que precisam fazer transplante


  • Estudo com protocolo menos agressivo mostra que 45% dos pacientes acima de 60 estavam vivos após dois anos
  • Radioterapia é fundamental para cirurgia; preparo tradicional é mais agressivo, e pode causar morte de pessoas mais frágeis

 

Vitor Hugo Batista

 

Um estudo clínico testou um protocolo menos agressivo de preparação para transplante de medula óssea em pacientes com 60 anos ou mais. Combinando radiação direcionada apenas à medula e quimioterapia reduzida, que são opções menos tóxicas para o corpo, 45% dos pacientes estavam vivos e sem piora da doença após dois anos.

A taxa de sobrevida global nesse mesmo período, ou seja, a quantidade de pacientes vivos, independentemente de a doença ter voltado ou não, também foi de 45%. Em outras palavras, isso significa que o protocolo é ideal para idosos mais frágeis, garantindo eficácia com baixa toxicidade nessa população.

O estudo foi realizado por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita. Os resultados foram apresentados durante o encontro anual da ASH (Sociedade Americana de Hematologia), que aconteceu em Orlando, Flórida, nos Estados Unidos, entre os dias 6 e 9 de dezembro.

O transplante de medula óssea, como é popularmente conhecido o transplante de células-tronco hematopoéticas (TCH), substitui as células doentes da medula por células saudáveis de um doador.

O procedimento é feito em pacientes com leucemias (que afetam células sanguíneas da medula), mieloma múltiplo (que afeta celular de defesa) e síndromes mielodisplásicas (que afetam a produção de células saudáveis).

Antes de realizar um transplante desse tipo, os pacientes precisam tomar uma série de medicamentos e realizar radiação para preparar o corpo. No protocolo padrão, o processo é mais agressivo e pode ser perigoso, principalmente para idosos com mais fragilidades e com outros problemas de saúde.

"Nessa etapa de condicionamento para preparar o corpo para o transplante, o paciente é submetido a quimioterapia e radioterapia em altas doses. Essa é uma etapa muito crítica e pesada, porque gera alta toxicidade. Alguns pacientes podem morrer", afirma Mariana Kerbauy, especialista em hematologia e transplante de medula, e médica do Einstein Hospital Israelita.

O estudo do Einstein avaliou 28 idosos, com média de idade de 67 anos, entre 2017 e 2024. Metade deles tinha doença ativa ou resistente a tratamentos anteriores, ou seja, eram casos mais difíceis. Todos foram acompanhados por cerca de 34 meses.

Os pesquisadores usaram uma combinação mais tolerável no preparo dos pacientes: busulfano e fludarabina para uma quimioterapia mais leve e uma radiação mais precisa.

Os pacientes foram submetidos a uma irradiação de medula direcionada (TMI), que é mais focada do que a técnica tradicional, chamada de irradiação corporal total (TBI). Ambos os procedimentos destroem as células malignas.

Na TMI, a radiação é aplicada de forma precisa e direta na medula óssea, localizada em todo o esqueleto, e é ajustada para atingir principalmente as áreas necessárias.

"Quando a gente faz a radioterapia tradicional, a gente irradia o corpo inteiro do paciente. Então acaba sendo tóxico para o pulmão, para o intestino. Mas na irradiação direcionada, a gente desenha exatamente onde a radiação vai chegar", diz Kerbauy.

A vantagem é que a TMI ajuda a proteger outros órgãos e tecidos que não precisam ser irradiados, o que aumenta a eficácia e reduz os efeitos colaterais, colmo vermelhidão da pele, queda de pelos, diarreia e alterações no paladar.

A assistente social Ana Gabriela Mesquita Alves, 42, tem diagnóstico de hepatite autoimune, precisou de um transplante de fígado após o seu quadro piorar Sem conseguir um órgão por meio da fila onde estava inserida, em Fortaleza (Ceará), Ana foi a primeira pessoa transplantada na Santa Casa de Belém, no Pará, onde mora, após um programa de capacitação e monitoramento com o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo Um ano após o transplante, a jovem teve sua vida de volta ao normal, podendo frequentar a academia, praticar hobbies como pintura e até mesmo viajar Para o acompanhamento pós-transplante, Ana passa por exames de rotina a cada dois meses na Santa Casa com o médico Rafael Garcia e também faz teleconsultas pelo telefone

O paciente permanece deitado enquanto uma máquina distribui feixes de radiação de alta energia nas áreas-alvo da medula óssea. O procedimento leva cerca de 30 minutos a uma hora e costuma ser indolor.

"Mostramos que é factível realizar transplante em pacientes idosos que, com o protocolo convencional, não tolerariam o preparo e dificilmente se curariam. Com essa técnica, conseguimos tratar com sucesso essa população antes excluída", afirma Kerbauy.

 

Entenda os resultados do estudo

Problema tradicional:

  • Pacientes idosos com leucemia grave ou síndromes mielodisplásicas precisam de transplante de medula para ter chance de cura.
  • Mas o condicionamento clássico (quimioterapia e radioterapia) é tóxico demais para eles, pois causa falência de órgãos e infecções.
  • Com isso, idosos não conseguem fazer o transplante. Sem transplante, dificilmente se curam, pois a doença progride e mata.

A solução com a nova técnica:

  • Com TMI (radiação precisa só na medula), a toxicidade cai drasticamente, pois a radiação é direcionada apenas nas áreas necessárias, protegendo outros órgãos e tecidos.
  • Com o novo protocolo, portanto, idosos conseguem tolerar o preparo: fazem o transplante com sucesso e alcançam maior chance de cura.

O repórter viajou a convite da Johnson & Johnson.

 

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2025/12/radiacao-focada-na-medula-traz-menos-riscos-e-maior-sobrevida-para-idosos-que-precisam-fazer-transplante.shtml

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