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Publicado em 17/12/2025 - 09:51 / Clipado em 17/12/2025 - 09:51

Autocoleta pode ser aliada na prevenção do câncer de colo do útero


Coleta de amostras de urina e da vagina pela própria paciente teve boa aceitação entre participantes de estudo; alta concordância dos resultados com amostras colhidas por profissional de saúde foi outro resultado positivo

 

Texto: Fabiana Mariz

Arte: Simone Gomes

 

Um estudo liderado por cientistas da USP mostrou que a autocoleta de urina e de amostras vaginais são métodos viáveis, confiáveis e bem aceitos por pacientes no rastreamento do câncer de colo do útero. A conclusão veio após a realização de exames em mulheres diagnosticadas com lesões cervicais de alto grau no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Os resultados apoiam a inclusão da autocoleta em programas nacionais para ampliar a cobertura de triagem do câncer de colo do útero.

A pesquisa incluiu cem mulheres com 21 anos que foram encaminhadas das Unidades Básicas de Saúde (UBS) ao HC para a realização de colposcopia devido a anormalidades detectadas no papanicolau ou em achados de biópsia. Além de avaliar a aceitabilidade dessas duas abordagens, o objetivo também foi investigar a concordância dos resultados do teste molecular de HPV de alto risco (a partir de amostras autocoletadas) em comparação com aquelas colhidas por um profissional de saúde, entre janeiro e setembro de 2024. 

As análises mostraram excelente concordância para o HPV 16 e outros tipos de HPV de alto risco entre as amostras coletadas pela própria participante, por urina e por profissional de saúde. Tanto a coleta de urina quanto a coleta vaginal foram relatadas como fáceis e confortáveis pelas participantes. As instruções foram consideradas fáceis ou muito fáceis por quase todos os participantes para todos os métodos de coleta. A coleta realizada por um profissional de saúde foi associada a maior constrangimento e desconforto. 

A coleta de urina foi o método preferido neste estudo. A alta concordância com as amostras coletadas por profissionais de saúde confirma sua utilidade clínica. Uma das ferramentas da pesquisa muito bem avaliada no estudo foi o vídeo instrutivo, que as participantes assistiam antes de iniciar a coleta das amostras: 99% relataram que ele facilitou a compreensão dos procedimentos, e todas concordaram que os serviços de saúde deveriam oferecer vídeos instrutivos. Além disso, 62% das mulheres indicaram que assistir ao vídeo as fez sentir mais confiantes e seguras ao usar os dispositivos. Por outro lado, 38% afirmaram que, embora tenham achado o vídeo útil, preferiam ter um profissional de saúde disponível para sanar quaisquer dúvidas após assisti-lo. 

“O que vemos na nossa prática clínica é que a maioria dos casos de câncer invasivo são diagnosticados em estágios avançados, mesmo numa cidade como São Paulo. Então, entendendo todas as dificuldades e as diferenças socioeconômicas do nosso País, buscamos realizar um estudo capaz de captar mais mulheres”, diz Cristina Castanheira, ginecologista e primeira autora do estudo. 

Na etapa inicial, as participantes responderam a um questionário sobre histórico clínico, dados demográficos e informações ginecológicas e obstétricas. Após assistirem ao vídeo instrutivo, realizaram a coleta de amostras da própria urina e da vagina. Além disso, foram submetidas à colposcopia, um exame ginecológico que permite observar com mais detalhes o colo do útero, a vagina e a vulva, para melhor avaliação das lesões e planejamento terapêutico. O teste de DNA do HPV foi realizado e, posteriormente, houve uma análise de concordância entre as amostras.

A maioria das participantes tinha entre 30 e 39 anos, autoidentificadas como pardas ou mestiças, casadas ou em união estável (53%). 62% delas concluíram o ensino médio e 13% relataram ter ensino superior. Em relação à religião, 45% se identificaram como evangélicas ou protestantes, enquanto 28% relataram ser católicas. A maioria das participantes não fumava (83%).

“A novidade do nosso trabalho foi validar a urina como mais um método viável para detecção do HPV”, comemora Gustavo Maciel, ginecologista do Fleury Medicina e Saúde, professor da FMUSP e orientador de Cristina Castanheira. 

“Testamos três tipos de autocoleta, mostrando que podemos ampliar o acesso ao rastreamento do câncer de colo do útero de acordo com a região do País”, completa.

 

Papilomavírus humano

O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo. Causado pelo Papilomavírus Humano, pode acometer vulva, vagina, colo do útero, região perianal, ânus, pênis (geralmente na glande), bolsa escrotal e/ou região pubiana.

Existem mais de 200 tipos de HPV. Alguns deles podem causar verrugas genitais, enquanto outros estão associados a tumores malignos, como o câncer do colo do útero, ânus, pênis, boca e garganta. As infecções persistentes estão relacionadas a 12 tipos considerados oncogênicos, especialmente os HPV 16 e 18, que apresentam maior risco de progressão para lesões precursoras que, se não identificadas, confirmadas e tratadas, podem evoluir para o câncer ao longo de vários anos.

De acordo com Cristina, para que uma infecção pelo HPV vire uma lesão pré-cancerígina, são necessários vários fatores. 

“Existem características individuais da mulher, como outras infecções sexuais, número de parceiros, idade, idade de início das atividades sexuais, idade do primeiro parto e tabagismo”.

“As pessoas têm que entender que o teste de HPV não é um teste de fidelidade, não é um teste de quantos parceiros você teve, como foi o seu passado mesmo, porque o vírus pode ficar inativo no corpo por muito tempo”, instrui Lara Termine, oncologista no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e uma das autoras do estudo. 

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer do colo do útero é a quarta causa de morte por câncer em mulheres no Brasil, e a região Norte é a que apresenta a maior taxa de mortalidade. A previsão é que, a cada ano, 17 mil novos casos sejam diagnosticados (estimativa para 2023-2025).

Na Austrália, por exemplo, em 2021, não houve casos de câncer de colo de útero em mulheres como menos de 25 anos. Foi a primeira vez que o país conseguiu zerar o número de casos desde o início dos registros, em 1982. Os dados estão no relatório mais recente do Centro de Excelência em Pesquisa para o Controle do Câncer do Colo do Útero. O documento diz que esssa conquista se deve “quase certamente ao impacto da vacinação contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo governo australiano desde 2017″. 

A vacinação contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é a forma mais eficaz de prevenção, aliada ao uso de preservativos, que ajudam a reduzir o risco de contágio.

Em março de 2024, o Ministério da Saúde do Brasil publicou diretrizes que autorizam o uso de testes moleculares para o papilomavírus humano oncogênico de alto risco (HPV-AR) como rastreamento primário para o câncer de colo do útero. Esse tipo de exame demonstrou ser superior ao papanicolau, oferecendo maior sensibilidade para a identificação de cânceres invasivos, lesões precursoras e adenocarcinomas. 

 

Muito além das desigualdades

Como o Brasil é um País de dimensões continentais, com desigualdades econômicas e sociais e altas taxas de mortalidade por câncer de colo do útero, a adoção de um método de rastreamento mais sensível poderia ajudar a controlar a doença. “Entendendo todas as dificuldades e as diferenças socioeconômicas do nosso País, a gente buscou um estudo que fosse capaz de captar mais mulheres, porque a gente tem uma falha no rastreio”, explica Cristina Castanheira. “Hoje, há um rastreamento dito oportunístico. A paciente vai a uma consulta ginecológica por qualquer que seja a queixa, e você acaba coletando um teste de papanicolau, que não é o melhor exame para fazer um rastreamento”. 

Medo, vergonha e dor, além do acesso limitado aos serviços de saúde, também foram apontados pelas pesquisadoras como fatores que dificultam a eficácia do programa brasileiro. “Muitas mulheres não querem ir ao ginecologista, não querem ser submetidas a um exame ginecológico”, alerta Cristina.

Lara Termine diz que a autocoleta pode ser uma alternativa viável para pacientes que evitam procurar um médico por questões religiosas, por alguma deficiência física ou acamados. “Homens transgênero não se sentem à vontade de ir a um ginecologista. Precisamos oferecer uma maneira de eles também fazerem seu exame de prevenção”, finaliza. 

Um artigo com mais detalhes do estudo foi publicados na revista científica Clinics.

Mais informações: criscastanheira@hotmail.com, com Cristina Castanheira

 

https://jornal.usp.br/ciencias/autocoleta-pode-ser-aliada-na-prevencao-do-cancer-de-colo-do-utero/

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