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Portal Folha de S. Paulo

Publicado em 12/08/2025 - 10:16 / Clipado em 13/08/2025 - 10:16

Pesquisas sobre falha genética ligada a tumores agressivos e novo marcador para câncer colorretal vencem Prêmio Octavio Frias


 Cerimônia também homenageia a oncologista Maria Paula Curado na categoria Personalidade de Destaque


Laiz Menezes
São Paulo

Duas pesquisas brasileiras sobre tratamento e prevenção do câncer venceram a 16ª edição do Prêmio Octavio Frias de Oliveira nesta terça-feira (12). Na categoria Pesquisa em Oncologia, foi premiado um estudo que identificou uma falha no processamento genético das células associada a tumores agressivos. Em Inovação Tecnológica, venceu um trabalho que propõe aprimorar o rastreamento do câncer colorretal com a detecção de um biomarcador promissor em amostras de fezes.

Promovido pelo Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira) em parceria com o Grupo Folha, o prêmio conta ainda com uma terceira modalidade, Personalidade de Destaque, que reconhece pessoas com contribuições relevantes para a oncologia. Nesta edição, a oncologista Maria Paula Curado foi a homenageada.

Desde 2010, o prêmio homenageia Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha de 1962 a 2007, ano da sua morte, com objetivo de estimular a produção de conhecimento sobre prevenção e combate ao câncer. Os premiados nas três categorias recebem R$ 20 mil cada um e um certificado.

Entre os autores do estudo premiado na categoria Pesquisa em Oncologia estão o professor no Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo), Alexandre Bruni-Cardoso, 45, e a pós-doutoranda em neuro-oncologia na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, Ana Maria Rodrigues, 31, que decidiu se dedicar à área inspirada pela avó, vítima de câncer.

A pesquisa identificou uma falha no processamento genético das células que pode favorecer o crescimento de tumores agressivos. A descoberta, feita em células humanas e publicada na revista Oncogene (do grupo Nature), descreve uma variante defeituosa da proteína MST2, que normalmente funciona como um freio natural que impede o crescimento descontrolado das células.

Alterada, essa variante, chamada MST2Δ7, não apenas perde a função, como também bloqueia a proteína saudável, sabotando o "freio" e favorecendo a multiplicação celular, o que contribui para a progressão do câncer.

A variante foi detectada em cânceres de mama, pâncreas e pulmão, mas não em tecidos normais, o que sugere seu potencial como marcador da doença. Em tumores de pâncreas, ela está associada a formas mais agressivas e menor sobrevida.

A descoberta, segundo Bruni-Cardoso, pode abrir caminho para a criação de novos marcadores diagnósticos e até tratamentos específicos. Os próximos passos incluem aprofundar a análise dessa proteína em amostras de mais pacientes e desenvolver métodos para identificá-la diretamente nos tumores, compreendendo melhor sua função quando alterada.

Com esse conhecimento, será possível avaliar estratégias para reverter a alteração que a desativa, o que poderá levar ao desenvolvimento de medicamentos capazes de restaurar sua ação como freio do crescimento tumoral.

"Essa proteína funciona como um supervisor, identificando e corrigindo processos que estão errados. Quando encontramos sua expressão elevada em tumores mamários, percebemos que poderíamos estar diante de um novo marcador, e, quem sabe, de uma futura estratégia de tratamento", explicou após recebimento do prêmio.

Bruni-Cardoso recebeu o prêmio das mãos de Vinicius Mota, secretário de Redação da Folha. No evento, o jornalista parabenizou os vencedores e ressaltou a dificuldade cada vez maior, ao longo dos anos, de escolher apenas um trabalho por categoria, diante da excelência das pesquisas. Também lembrou o patrono da premiação, Octavio Frias, descrito como um grande entusiasta da ciência.

Na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia, estão entre os desenvolvedores do estudo premiado o biólogo José Guilherme Datorre, 36, o gastroenterologista e endoscopista Cláudio Hashimoto, 57, e o biomédico Lázaro Novaes, 34. Eles são, respectivamente, coordenador do Departamento de Endoscopia e coordenador de Projetos de Pesquisa, ambos no Hospital de Amor, em Barretos (SP).

O prêmio foi entregue pelo professor Roger Chammas, titular de oncologia da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Na ocasião, ele ressaltou os avanços da pesquisa oncológica no Brasil e a importância desses trabalhos para a prevenção e o combate ao câncer no país.

"O patrono do prêmio dizia que onde existe vontade, existe um caminho. Há 16 anos, temos mostrado que, onde há vontade de conhecer, há caminhos para avançar. Nossos pesquisadores, apesar das dificuldades impostas pela conjuntura, têm demonstrado não só grande resiliência, mas também eficiência em trazer soluções para o câncer e em aplicar os conhecimentos gerados à saúde pública", afirmou.

Ele também destacou o papel da Folha no processo: "Contamos com a Folha para identificar de perto as barreiras que enfrentamos, mas também para celebrar as conquistas. Agradecemos a oportunidade de valorizar a qualidade da pesquisa científica brasileira", disse o professor. "Esse é o nosso propósito: fazer ciência que traga benefício para a nossa população."

O estudo vencedor identificou uma forma de melhorar o rastreamento do câncer colorretal ao detectar a bactéria Fusobacterium nucleatum (Fn) como um biomarcador promissor em amostras de fezes usadas no teste imunológico fecal (FIT), por meio da técnica PCR digital em gotículas (ddPCR). Essa tecnologia, considerada a evolução mais sensível da PCR tradicional, permite identificar molécula por molécula de DNA bacteriano, mesmo em baixíssimas concentrações, e quantificar com precisão sua presença.

Realizada com 300 participantes assintomáticos do programa de rastreamento do Hospital de Amor, a pesquisa mostrou que níveis elevados da bactéria estavam associados a lesões avançadas que podem levar ao tumor e também ao próprio câncer colorretal, especialmente em pacientes com FIT positivo —exame que detecta sangue oculto nas fezes, mas não a doença diretamente.

A inclusão da detecção da bactéria no rastreamento do câncer colorretal ajudaria a priorizar quem deve fazer colonoscopia com mais urgência, sem substituir o exame. Ao acrescentar um parâmetro mais específico, seria possível otimizar a fila e identificar precocemente lesões que poderiam evoluir para câncer.

Durante a premiação, Datorre destacou que, apesar das dificuldades e do desconforto do preparo para a colonoscopia, esse exame ainda é o padrão ouro para o diagnóstico preciso do câncer colorretal. Mas ele acredita que, no futuro, a combinação de biomarcadores poderá ajudar a identificar quem realmente precisa fazer a colonoscopia com maior frequência e quem pode aguardar períodos mais longos entre os exames.

"Ainda não temos um teste substituto, mas estudos buscam integrar esses marcadores para tornar o rastreamento mais eficiente e menos invasivo, especialmente para pessoas com histórico familiar de câncer", explicou.

Na pesquisa, o novo teste identificou todos os casos de câncer entre os FIT positivos. Os pesquisadores planejam ampliar o estudo para mais de mil participantes e investigar outras bactérias para aumentar a precisão do rastreamento.
 

Personalidade de Destaque

A oncologista Maria Paula Curado, 72, chefe de Epidemiologia e Estatística em Câncer do Instituto A.C.Camargo Cancer Center, foi agraciada com o prêmio Octavio Frias de Oliveira na categoria Personalidade de Destaque.

É docente da pós-graduação da Fundação Antônio Prudente, do A.C.Camargo, e colabora com o programa de pós-graduação da UFG (Universidade Federal de Goiás), onde formou-se em Medicina em 1977. Também foi chefe do departamento de Epidemiologia Descritiva do IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), da OMS (Organização Mundial da Saúde), na França, entre 2007 e 2010.

Curado é referência na área de epidemiologia do câncer, área que estuda a distribuição, determinantes e fatores de risco relacionados aos tumores em diferentes populações. Com mais de três décadas dedicadas à pesquisa, ensino e assistência, a oncologista foi a primeira cirurgiã de cabeça e pescoço no A.C.Camargo.

Um dos trabalhos pioneiros da médica foi um estudo multicêntrico que investigou diferenças regionais no câncer de cabeça e pescoço entre Goiânia, São Paulo e Curitiba. Durante mais de cinco anos, a equipe recrutou 500 pacientes e identificou padrões distintos de exposição a fatores de risco, como o consumo de diferentes tipos de bebidas alcoólicas e o tabagismo, que explicavam a variação na incidência da doença nessas regiões.

Esse estudo, realizado sem financiamento formal e com recursos próprios, contribuiu para o avanço da epidemiologia do câncer no Brasil e abriu caminho para a inserção do país em grupos internacionais de pesquisa, afirma a médica.

Ao receber a homenagem como Personalidade de Destaque, a professora ressaltou a necessidade de enfrentar as desigualdades regionais no diagnóstico e no tratamento do câncer no Brasil. Para ela, o envelhecimento da população e a transição no perfil das doenças tornam urgente a adoção de estratégias adaptadas à realidade de cada região —do Sul e Sudeste, onde o câncer já supera as doenças cardiovasculares, ao Norte e Nordeste, onde tipos preveníveis, como o de colo do útero, ainda são prevalentes.

"O objetivo é único: diagnosticar rápido e garantir tratamento que dê sobrevida adequada. Mas a forma de alcançar isso precisa considerar as particularidades de cada local", afirmou.

Durante sua carreira, Curado também liderou o estabelecimento do registro populacional de câncer em Goiânia, um dos primeiros da região Centro-Oeste, que funciona há mais de 30 anos e é fundamental para o monitoramento da incidência e das tendências da doença na população local.

Na OMS, orientou pesquisadores de diversos países e realizou estudos sobre epidemiologia global do câncer. Entre suas contribuições internacionais está a investigação sobre a vacinação contra hepatite B na África, evidenciando a desigualdade de acesso entre homens e mulheres e seu impacto na incidência de câncer de fígado entre a população feminina.

Curado recebeu o prêmio das mãos do presidente do Conselho Diretor do Icesp, o urologista William Nahas, integrante do grupo responsável por avaliar e definir os premiados. Para ele, é fundamental que o Brasil tenha caminhos para a valorização de pesquisas e cientistas.

"O país sofre pela falta de reconhecimento da forma científica de abordar os aspectos mais diversos do cenário [de saúde] nacional. Essa iniciativa, não nova, mas antiga, bastante fundamentada e prestigiada pela Folha, é muito importante para todos nós", disse.

 

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2025/08/pesquisas-sobre-falha-genetica-ligada-a-tumores-agressivos-e-novo-marcador-para-cancer-colorretal-vencem-premio-octavio-frias.shtml

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