Publicado em 13/01/2026 - 16:24 / Clipado em 13/01/2026 - 16:24
Shopping em chamas: como incêndio na Tijuca poderia ter sido evitado
Especialistas alertam para a necessidade de uma análise técnica como forma de prevenir tragédias
Herculano Barreto Filho
O incêndio no Shopping Tijuca, que deixou duas pessoas mortas e outras três feridas há pouco mais de uma semana na Zona Norte do Rio, poderia ter sido evitado, indicam novas evidências trazidas sobre o caso. Especialistas ouvidos pela Agenda do Poder ajudam a responder, trazendo dados sobre esse tipo de ocorrência.
A Polícia Civil investiga se as chamas foram causadas pelo ar-condicionado de uma loja de decoração no subsolo. As novas evidências servem como argumento para a instalação de uma CPI nos próximos dias na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A administração do shopping, que ainda tem 17 lojas e o subsolo interditados, diz colaborar com as apurações. Ainda que o relatório já aponte medidas que poderiam ter sido adotadas para minimizar riscos, o que um shopping pode fazer para impedir que casos como esse voltem a acontecer?
Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) obtido pela reportagem registrou 215 incêndios em áreas comerciais no país, o equivalente a 18% dos 1.186 casos contabilizados em 2024. O índice representa alta de 12,5% em comparação ao ano anterior.
Diretor-executivo da Abracopel, Edson Martinho diz que esses casos só podem ser evitados se houver manutenção contínua, feita por profissionais qualificados. “A recomendação é que esse tipo de verificação seja feita ao menos uma vez por ano. Os estabelecimentos precisam usar produtos de qualidade e certificados pelo Inmetro. Assim, é possível identificar possíveis problemas e, consequentemente, fazer as correções”, diz.
Ele alerta, ainda, para os riscos envolvendo aparelhos de ar-condicionado, que podem ter sido a causa incêndio no Shopping Tijuca. “É preciso fazer a avaliação dos cabos, com estudo para verificar se a instalação elétrica está adequada”.
O capitão Maycon Cristo, do Corpo de Bombeiros de São Paulo, diz, ainda, que shoppings precisam estar com o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) em dia. “Toda a edificação comercial precisa ter o AVCB dentro do prazo de vigência. E, se for feita alguma alteração, é preciso que seja solicitada nova vistoria para que o estabelecimento esteja em segurança”, orienta.
Documentos assinados pelos profissionais de segurança do próprio estabelecimento comercial dias antes da tragédia já indicavam graves irregularidades, em local de “alto risco” devido a fiações elétricas precárias, detectores de fumaça desmontados e armazenamento incorreto de mercadorias. O relatório, emitido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), foi assinado inclusive pelo supervisor Anderson Aguiar Prado e pela brigadista Emellyn Silva, as vítimas fatais.
Rotas de fuga e ‘desvantagens’ em subsolos
Mas o engenheiro Gerardo Portela, especialista em Riscos e autor de livros sobre o assunto, diz que a situação é bem mais complexa.
“As recomendações são necessárias e importantes, mas não são suficientes. O Corpo de Bombeiros é especializado no combate ao incêndio, mas não tem um núcleo de Engenharia. Por isso, é de responsabilidade da administração do shopping buscar profissionais qualificados para que façam uma análise de risco e segurança para robustecer a prevenção”.
Gerardo Portela
Portela alerta para a alta quantidade de energia nesses locais, o que potencializa riscos de incêndio devido ao uso de ar-condicionado. Segundo ele, é preciso ter uma manutenção adequada principalmente durante o verão, quando as temperaturas estão mais elevadas.
Ele também alerta para a importância de ter rotas de fuga, especialmente em áreas com subsolo, onde ocorreu o incêndio no Shopping Tjuca. “Hoje, existe tecnologia de prevenção e de respostas a emergências capazes de evitar uma tragédia”, diz.
“O subsolo tem desvantagens técnicas em casos de incêndio, que ocorre em um espaço confinado, impedindo que o calor seja dissipado. O aumento de temperatura é mais rápido. A fumaça é mais intensa, dificultando a visibilidade e a locomoção, gerando pânico e até asfixia por gases tóxicos, o que pode ser letal”.
Gerardo Portela
Segundo o especialista, a obrigatoriedade para que as pessoas façam deslocamento para andares superiores também dificulta fugas em casos de incêndio em subsolos. “As pessoas vão ter que subir, causando a sensação de que estão indo pelo caminho errado, já que a fumaça também vai para cima. As escadas precisam ser mais largas”.
Ele também desaconselha que sejam instalados restaurantes ou áreas com espaço kids no subsolo, como é o caso do Shopping Tijuca. “Esses estabelecimentos necessitam de equipamentos com potência elétrica elevada e levam uma grande quantidade de pessoas para o subsolo. Isso deixa esses locais ainda mais vulneráveis”.
Quais as 5 maiores tragédias em shoppings no país
7 de março de 2023 – Um incêndio no cinema do Shopping Rio Anil, em São Luís (MA), deixou ao menos duas pessoas mortas e outras 21 feridas. As empresas que administram o estabelecimento se comprometeram a pagar R$ 5,3 milhões às vítimas. Os valores da indenização foram definidos por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) mediado pelo Ministério Público do Maranhão.
8 de março de 2023 – Teto do Osasco Plaza Shopping, na Grande São Paulo, desabou. Com a queda, cinco veículos foram arremessados para dentro do estabelecimento. Ninguém se feriu.
15 de julho de 2024 – O Shopping Popular de Cuiabá (MT), que era o maior centro de compras no Centro-Oeste, foi destruído por um incêndio iniciado por uma falha elétrica. A tragédia afetou 600 comerciantes e cerca de 3 mil funcionários. Não houve vítimas fatais.
30 de outubro de 2024 – Um incêndio de grandes proporções destruiu cerca de 200 lojas do Shopping 25, que fica na região do Brás, em São Paulo. O acidente causou um prejuízo estimado de R$ 25 milhões, deixando três pessoas com ferimentos leves. Com mais de mil lojas, o shopping recebe cerca de 30 mil pessoas por dia, segundo a Associação dos Lojistas Brasileira (Alobras).
18 de janeiro de 2025 – Um outro incêndio no Shopping Rio Anil, em São Luís (MA), matou Kazimier Okrot, técnico que trabalhava na manutenção da subestação no momento do acidente. Ele chegou a ficar internado por um mês devido à gravidade das queimaduras. Ao menos outros três trabalhadores se feriram. Foi o segundo incêndio em um intervalo de dois anos no mesmo shopping.
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